Doce amargo.

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Ela nunca foi “mais”. Não era a mais bonita, não era a mais inteligente e no final das contas ela nem queria ser. Não que ela fosse medíocre, mas é que passar por média e não ser deformada já lhe bastava. Alguns a chamavam de “linda”, em contrapeso às ofensas que também a diziam. Ela nunca foi noiva na quadrilha da escola, apesar de ser convidada. No folclore, recusou ser a Diana-dos-dois cordões, porque achava que o personagem era do tipo “em cima do muro” e isso não combinava com ela. Não quis fazer a Dona Baratinha no teatro porque preferia se mudar pro Zimbabué a se apresentar em público. As meninas da turma faziam dança e ela aula de desenho. As outras crianças brincavam com palhaços enquanto ela tinha medo deles. Não era uma criança diferente por completo. Ela também tin

ha amigos. Também corria, brincava, subia em árvore e soltava fogos no São João. Mas é que a menina filha única nunca tivera vontade de ser um padrão. Essas coisas iguais se misturam com muita facilidade; ela nem gostava de multidão, quem dirá ser cópia fiel a um monte de gente? Toda a companhia da menina se resumia a um cachorro, uma resma de papel e um caixa de lápis com cinquenta e duas cores diferentes. A garota viajou longe, mas onde eu soube, nunca tivera nem passaporte pra carimbar. Tem gente que sente um gosto amargo na boca logo cedo e acha que esse desprazer na juventude vai justificar sua rabugice pra vida inteira. A tal menina se amargou cedo sim e muito – com um monte de gente, com um bocado de coisas. Mas só porque a menina sofreu não significar dizer que a mulher há de sofrer também. A mulher agora decidiu que as coisas serão diferentes. Que tudo de errado que ela viu na vida lhe cabia o concerto e que ela mesma ia fazê-lo. Que se a vida não lhe sorriu antes, talvez tenha sido só por falta da piada certa. Ela decidiu ser tudo, assim que descobrir o que exatamente é esse tudo. Mas, além disso, a moça se comprometeu muito cedo, consigo mesma, que antes de qualquer coisa, ela seria irritantemente feliz.
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